Presbiterianos da IPB viram Batistas em Portugal!
O fenômeno surgido a partir do Convênio IPB-APMT-ICPP
ICP Telheiras
ICP Carnaxide
ICP Campo de Ourique
ICP Barreiro
ICP Luz
ICP Pedras Vivas
ICP Pombal
ICP Leiria
ICP Guimarães
ICP Braga (fake first)
...
HOSPEDEIROS E
PARASITAS
O que uma coisa tem a ver com a outra?
“pois…”, como dizem os portugueses!
Como jornalista investigativo e observador de assuntos
políticos e religiosos, dentre outros, chamou minha atenção há alguns meses as frequentes
notícias sobre a grande quantidade de brasileiros em Portugal. Passei a me
interessar cada vez mais pelo assunto, embora nunca tenha me sentido atraído
pelo modo como evangélicos atuam, tanto aqui, no Brasil, quanto lá, em Portugal.
Olho de fora e o que vejo é um quadro confuso e mal pintado, em que todos
invocam o Deus da Bíblia, mas na grande maioria, o que buscam efetivamente é poder,
prestígio, influência, benesses de cargos, vida mansa, zona de conforto, e
por aí à fora.
Ao estudar mais a fundo as diferentes denominações
evangélicas, uma em especial passou a ocupar um triplex na minha cabeça, a PRESBITERIANA.
Do lado brasileiro, sua maior representante é a IPB -
Igreja Presbiteriana do Brasil, cuja história é ao mesmo tempo digna de
admiração, pela enorme contribuição com a criação de instituições de ensino
no país, e ao mesmo tempo marcada por sucessivas divisões internas, que
fizeram surgir outras siglas parecidas, como IPIB – Igreja Presbiteriana
Independente do Brasil (1903), IPC – Igreja Presbiteriana Conservadora (1940), IPFB
– Igreja Presbiteriana Fundamentalista do Brasil (1956), IPRB – Igreja
Presbiteriana Renovada do Brasil (1975) e a IPUB – Igreja Presbiteriana Unida
do Brasil (1983).
Na vertente portuguesa, há algo parecido, com a IEPP -
Igreja Evangélica Presbiteriana de Portugal, a mais antiga daquele país,
que tal qual a IPB, tem uma história também digna de admiração, e também
marcada por divisões internas, embora em menor extensão. A mais conhecida
divisão interna na IEPP, fez surgir a ICPP - Igreja Cristã Presbiteriana de
Portugal, e suas afiliadas, algumas das quais nomeadas no início deste
texto.
Em minhas pesquisas de campo constatei que, em comum, há
um elo que liga a IPB e a ICPP, um tal Convênio de 2003, que gerou
uma via larga e prazerosa para “pastores-missionários” brasileiros
passarem a morar em cidades turísticas portuguesas. Sim, cidades turísticas,
cercados de privilégios e generosos salários, quase sempre formados por
contribuições de igrejas parceiras brasileiras e por “ofertas” das comunidades
locais portuguesas. Em alguns casos, que já tratei em artigos anteriores,
pastores chegam a ganhar o equivalente a 20, 30 mil reais mensais, ou muito
mais que isso.
Coincidência ou não, nas Igrejas desses
“pastores-missionários” brasileiros da IPB/APMT que servem à ICPP lá em
Portugal, foge-se de eleições para pastor e lideranças locais “como o
diabo foge da cruz”, como diz o ditado popular.
No topo da denominação presbiteriana mais conservadora no
Brasil e em Portugal, vê-se algo semelhante à Igreja Católica Apostólica
Romana, pessoas que figuram como representante máximo da IPB e da ICPP por
décadas, e ainda a se orgulharem disso, em que pese carregarem a marca da
tradição presbiteriana, que tem no desapego ao poder centralizado e
personificado sua maior distinção em relação às demais igrejas evangélicas. Os
nomes são conhecidos e temidos no meio interno: Roberto Brasileiro e Manuel
Luzia (“Ave Cézar” duas vezes)!
Dentre aqueles muitos brasileiros que foram para
Portugal, há centenas que, no Brasil, frequentavam igrejas presbiterianas
vinculadas à IPB, e que mesmo após anos lá em terras além-mar, nunca se
desvincularam da condição de membro, ou seja, a IPB tem centenas de membros em
Portugal. Conversei com muitos deles, e, curiosamente, o sentimento
predominantemente é de que a imensa massa de brasileiros evangélicos da IPB que
moram em Portugal não veem nada realmente parecido com a estrutura séria de
governo que existe nas igrejas da IPB no Brasil. O relato comum é de
desassistência espiritual, pois os “pastores-missionarios” da APMT têm como foco
“alcançar o povo português” e, em sua maioria, idolatram o líder da ICPP (Manuel
Luzia, “Ave César”) e o outro pastor português da denominação, Paulo Jorge (esse último sem direito a
“Ave Cesar”), desde um episódio, guardado a sete chaves, que resultou na
desilusão de grande parte dos membros da ICP Carnaxide há poucos anos, e
fez com que ela passasse a ter menos de 10 membros, apesar de estar situada em
área nobre de Lisboa.
O generoso salário fixo pago a esse pastor da ICP
Carnaxide, da ordem de 2 mil euros em média, por mês, ou algo próximo a 12
mil reais, que vem a ser o que chamam de mínimo ou piso da denominação, é
atualmente fonte de frequentes embates internos, encabeçados pela ala mais
séria de pastores da ICPP, que tem no pastor Leonardo Campanha, da ICP
Pedras Vivas seu maior expoente, e, coincidentemente, o único eleito a
presidir um Conselho de Presbíteros também eleito pela comunidade, embora sem
força política para fazer frente ao domínio de Manuel Luzia.
Como resultado dessa situação, o que se vê é que dezenas daqueles brasileiros que eram de igrejas vinculadas à IPB no Brasil, hoje estão frequentando Igrejas Batistas.
Isso mesmo, e por mais estranho que pareça para um presbiteriano típico, segundo pude constatar, os presbiterianos então membros da IPB quando moravam no Brasil, se veem obrigados a frequentar as muitas Igrejas Batistas em Portugal, por não enxergarem a seriedade e a legitimidade do modelo presbiteriano nas igrejas da ICPP, apesar de na sua grande maioria serem conduzidas por “pastores-missionários” brasileiros da IPB.
O que se diz, inclusive, é que esses mesmos
“pastores-missionários” dificilmente seriam mantidos como lideranças em igrejas
brasileiras, e que não têm a coragem suficiente para irem para campos
missionários carentes, no Brasil ou em outros países do mundo não
evangelizados, e, por isso, se unem em torno de Manuel Luzia e Paulo
Jorge, como garantia de manutenção nas mais celebradas cidades turísticas
de Portugal.
E justamente nesse ponto é que cabe a comparação do sistema religioso IPB-APMT-ICPP, com a Biologia, na vertente “Parasitas e Hospedeiros”.
Há uma diferença essencial entre servir uma comunidade de fé e viver dela. A primeira realidade pertence ao campo da vocação. A segunda, ao campo da captura institucional. O problema começa quando as duas coisas passam a ser deliberadamente confundidas: quem é sustentado pelo sistema apresenta-se como voluntário; quem depende da boa-fé coletiva fala como se estivesse apenas “servindo”; quem ocupa lugares de influência por anos, décadas ou gerações apresenta a própria permanência como sinal de fidelidade, quando muitas vezes ela revela apenas domínio político sobre estruturas que deveriam ser espirituais.O presbiterianismo, em tese, foi concebido para
impedir personalismos. Conselhos, presbitérios, sínodos e concílios existem
precisamente para diluir o poder, submeter ministros e presbíteros a escrutínio
mútuo e impedir que a igreja seja propriedade de indivíduos ou grupos. Na IPB,
por exemplo, o Supremo Concílio é formalmente a assembleia magna composta por
deputados eleitos pelos presbitérios e órgão de unidade de toda a denominação.
A própria estrutura oficial pressupõe concílios, jurisdição, governo,
disciplina e documentos normativos.
Em Portugal, as comunidades presbiterianas também se
apresentam sob linguagem reformada, confessional e eclesial, com vida
comunitária, culto, tradição e estruturas próprias.
O problema, portanto, não está na
existência da estrutura, mas sim na sua colonização
A relação entre parasita e hospedeiro ajuda a
compreender esse fenómeno com uma precisão desconfortável.
Na biologia, o parasita não destrói imediatamente o
hospedeiro. Se o fizer, perde a fonte da própria sobrevivência. A sua
inteligência instintiva está em retirar o suficiente para se manter vivo, mas
não tanto a ponto de provocar colapso imediato. O parasita adapta-se ao corpo
que ocupa, aprende os seus ritmos, explora as suas defesas e, em certos casos, manipula
o comportamento do hospedeiro em benefício próprio.
Em estruturas religiosas, o mesmo padrão pode
ocorrer de forma social, simbólica e financeira. O hospedeiro é a comunidade:
os membros simples, as famílias que ofertam, os voluntários que limpam,
ensinam, cantam, visitam, transportam, evangelizam e sustentam a vida real da
igreja.
O parasita institucional é o grupo que aprende a
converter essa energia espiritual em permanência no poder, influência informal,
capital reputacional, remuneração direta ou indireta, cargos, viagens,
visibilidade, controle de púlpitos, acesso a redes e capacidade de decidir quem
entra, quem sobe, quem é silenciado e quem será tratado como ameaça.
O discurso público é quase sempre o mesmo: “fazemos
tudo por vocação”; “a obra é de Deus”; “ninguém está aqui por interesse”; “é
tudo voluntário”; “estamos apenas a servir”. Mas, quando se observa o fluxo
real de benefícios, a narrativa começa a perder inocência.
Há sempre alguém a financiar e alguém a ser
financiado. Há sempre quem dê sem retorno institucional e quem receba em forma
de salário, prebenda, influência, autoridade, visibilidade ou proteção.
Nem todo sustento ministerial é
parasitário, evidentemente
Uma igreja que sustenta com transparência os seus pastores
age dentro de uma lógica legítima. O problema surge quando o sustento se
esconde atrás da retórica do sacrifício, quando a dependência econômica se
apresenta como espiritualidade e quando a prestação de contas é substituída por
apelos à confiança.
O parasitismo religioso raramente se anuncia como
ganância. Ele prefere a gramática da piedade. Não diz “quero permanecer no
topo”; diz “Deus ainda me conserva aqui”. Não diz “não quero perder
influência”; diz “é preciso preservar a unidade”. Não diz “não admito
fiscalização”; diz “não podemos escandalizar o Evangelho”. Não diz “este
sistema sustenta os meus interesses”; diz “não toqueis nos ungidos do Senhor”.
A manipulação é eficaz porque usa palavras santas
para blindar comportamentos profanos. O ponto crítico é a assimetria moral. O
membro comum é ensinado a servir sem esperar reconhecimento. O líder instalado,
por sua vez, espera deferência, proteção, continuidade e, em muitos casos, remuneração.
O voluntariado é exigido da base; a estabilidade é reservada ao topo. A
renúncia é pregada aos que ofertam; a preservação de privilégios é praticada
pelos que governam. A comunidade aprende a chamar de “sacrifício” aquilo que
entrega, enquanto certos dirigentes chamam de “sustento legítimo” aquilo que
recebem.
O parasita institucional depende de três condições:
memória curta, culpa moral e medo de ruptura. A memória curta impede que a
comunidade compare promessas antigas com resultados concretos. A culpa moral
faz com que qualquer questionamento pareça rebeldia. O medo de ruptura
mantém pessoas lúcidas em silêncio, porque elas não querem “dividir a igreja”.
Assim, o sistema aprende que basta acusar o crítico
de falta de amor, falta de submissão ou falta de espiritualidade para
neutralizar perguntas legítimas.
Essa é uma das formas mais eficientes de
abuso institucional: transformar lucidez em pecado
Há ainda uma camada mais sutil. Em muitas
comunidades, quem financia o sistema não tem verdadeira voz sobre ele. O membro
oferta, trabalha, comparece, educa filhos na tradição, sustenta eventos, mantém
templos, legitima estatísticas e dá corpo à denominação. Mas, quando pretende
discutir prioridades, finanças, critérios de liderança, sucessão, disciplina ou
transparência, é tratado como rebelde ou insurgente.
O hospedeiro sustenta o organismo, mas
não controla o organismo que vive dele
Essa inversão é o núcleo do problema. A igreja local
vira base eleitoral. O voluntário vira mão de obra gratuita. A contribuição
financeira vira combustível para máquinas pouco auditáveis. A confiança
pastoral vira capital político. A espiritualidade da membresia vira cobertura
moral para uma elite que se apresenta como serva enquanto opera como classe
dirigente.
A comparação com parasitas é um ataque à fé cristã
nem ao presbiterianismo enquanto tradição. A crítica é aqui feita porque a
tradição presbiteriana, quando levada a sério, contém anticorpos contra esse
tipo de captura. Governo colegiado, pluralidade de presbíteros, disciplina,
concílios, escrutínio doutrinário, deliberação formal e responsabilidade mútua
existem exatamente para impedir que o carisma pessoal, o sobrenome, a rede de
favores ou o controlo financeiro substituam a fidelidade bíblica.
O problema é que anticorpos institucionais também
podem ser neutralizados. Basta que os mesmos grupos controlem nomeações,
comissões, candidaturas, relatórios, púlpitos, narrativas e processos
disciplinares. Quando isso acontece, a forma continua presbiteriana, mas a
substância aproxima-se de uma oligarquia religiosa. Há atas, concílios,
eleições e regimentos; mas a previsibilidade dos resultados denuncia que o
sistema já foi domesticado.
O público externo tende a imaginar que o risco maior
das instituições religiosas está em escândalos visíveis: dinheiro desviado,
abuso sexual, enriquecimento ostensivo, manipulação eleitoral explícita. Esses
casos existem e precisam ser tratados com dureza. Mas a forma mais persistente
de parasitismo costuma ser mais discreta: a perpetuação de estruturas que abusam
da pureza espiritual e boa-fé das pessoas.
O parasita não precisa roubar o cofre
para capturar a igreja; basta controlar a agenda, os temas que podem ser discutidos, quais perguntas são
inconvenientes, quais pessoas são “problemáticas”, quais relatórios são
apresentados, quais dados são omitidos, quais conflitos são tratados nos
bastidores, quais líderes serão protegidos e quais dissidentes serão isolados.
O “poder” não se revela apenas em quem assina
cheques, mas em quem define o que a comunidade pode ou não saber.
O teste moral é simples: quem recebe do sistema
aceita ser fiscalizado pelo sistema? Quem fala em vocação aceita abrir números,
critérios, benefícios, conflitos de interesse e mecanismos de sucessão? Quem
pede confiança aceita auditoria? Quem invoca unidade aceita contraditório? Quem
exige submissão aceita disciplina? Quem se apresenta como servo aceita perder
cargo sem destruir pessoas à sua volta?
Se a resposta for não, já não estamos no campo da
vocação. A boa doutrina pode ser usada como ornamento por maus operadores. A
tradição pode ser usada como escudo. A piedade pode ser convertida em
ferramenta de controle. E a boa-fé dos simples pode tornar-se o mais valioso
ativo de quem aprendeu a viver no topo sem prestar contas à base.
Nem todo discurso de serviço é serviço. Nem toda
estabilidade é fidelidade. Nem toda unanimidade é paz. Nem toda ausência de
conflito é saúde. Às vezes, a paz institucional é apenas o silêncio do
hospedeiro enfraquecido.
A cura começa quando a comunidade recupera o direito
de fazer perguntas sem ser culpabilizada. Quanto custa manter a estrutura? Quem
é remunerado direta ou indiretamente? Que benefícios existem além do salário
formal? Quem decide? Quem fiscaliza? Quem pode discordar? Como se dá a
sucessão?
Quais são os critérios objetivos para cargos,
comissões, púlpitos, bolsas, viagens, nomeações e representações? O que
acontece quando alguém denuncia abuso de poder? Quem protege o denunciante?
Onde essas perguntas são recebidas como
ameaça, há algo errado
A verdadeira vocação não teme a luz. O serviço
genuíno não precisa de neblina. A autoridade espiritual legítima não se ofende
com a prestação de contas. Quando líderes religiosos usam a boa-fé alheia como
alimento político, financeiro ou simbólico, deixam de atuar como pastores e
passam a comportar-se como organismos de extração.
Como me disseram algumas das pessoas com quem conversei
em Portugal, “ainda bem que temos as Igrejas Batistas aqui para não
ficarmos totalmente isolados. Ainda que algumas nos exijam ser novamente
catequizados e batizados, pelo menos conseguimos ver seriedade e fidelidade
bíblica, e não idolatria disfarçada de presbiterianismo”.




