terça-feira, 7 de julho de 2026

 Presbiterianos da IPB viram Batistas em Portugal!

 

O fenômeno surgido a partir do Convênio IPB-APMT-ICPP

 

ICP Telheiras

ICP Carnaxide

ICP Campo de Ourique

ICP Barreiro

ICP Luz

ICP Pedras Vivas

ICP Pombal

ICP Leiria

ICP Guimarães

ICP Braga (fake first)

...

 

HOSPEDEIROS E PARASITAS

O que uma coisa tem a ver com a outra?

 “pois…”, como dizem os portugueses!

 

Como jornalista investigativo e observador de assuntos políticos e religiosos, dentre outros, chamou minha atenção há alguns meses as frequentes notícias sobre a grande quantidade de brasileiros em Portugal. Passei a me interessar cada vez mais pelo assunto, embora nunca tenha me sentido atraído pelo modo como evangélicos atuam, tanto aqui, no Brasil, quanto lá, em Portugal. Olho de fora e o que vejo é um quadro confuso e mal pintado, em que todos invocam o Deus da Bíblia, mas na grande maioria, o que buscam efetivamente é poder, prestígio, influência, benesses de cargos, vida mansa, zona de conforto, e por aí à fora.

Ao estudar mais a fundo as diferentes denominações evangélicas, uma em especial passou a ocupar um triplex na minha cabeça, a PRESBITERIANA.

Do lado brasileiro, sua maior representante é a IPB - Igreja Presbiteriana do Brasil, cuja história é ao mesmo tempo digna de admiração, pela enorme contribuição com a criação de instituições de ensino no país, e ao mesmo tempo marcada por sucessivas divisões internas, que fizeram surgir outras siglas parecidas, como IPIB – Igreja Presbiteriana Independente do Brasil (1903), IPC – Igreja Presbiteriana Conservadora (1940), IPFB – Igreja Presbiteriana Fundamentalista do Brasil (1956), IPRB – Igreja Presbiteriana Renovada do Brasil (1975) e a IPUB – Igreja Presbiteriana Unida do Brasil (1983).

Na vertente portuguesa, há algo parecido, com a IEPP - Igreja Evangélica Presbiteriana de Portugal, a mais antiga daquele país, que tal qual a IPB, tem uma história também digna de admiração, e também marcada por divisões internas, embora em menor extensão. A mais conhecida divisão interna na IEPP, fez surgir a ICPP - Igreja Cristã Presbiteriana de Portugal, e suas afiliadas, algumas das quais nomeadas no início deste texto.

 

Em minhas pesquisas de campo constatei que, em comum, há um elo que liga a IPB e a ICPP, um tal Convênio de 2003, que gerou uma via larga e prazerosa para “pastores-missionários” brasileiros passarem a morar em cidades turísticas portuguesas. Sim, cidades turísticas, cercados de privilégios e generosos salários, quase sempre formados por contribuições de igrejas parceiras brasileiras e por “ofertas” das comunidades locais portuguesas. Em alguns casos, que já tratei em artigos anteriores, pastores chegam a ganhar o equivalente a 20, 30 mil reais mensais, ou muito mais que isso.

Coincidência ou não, nas Igrejas desses “pastores-missionários” brasileiros da IPB/APMT que servem à ICPP lá em Portugal, foge-se de eleições para pastor e lideranças locais “como o diabo foge da cruz”, como diz o ditado popular.

No topo da denominação presbiteriana mais conservadora no Brasil e em Portugal, vê-se algo semelhante à Igreja Católica Apostólica Romana, pessoas que figuram como representante máximo da IPB e da ICPP por décadas, e ainda a se orgulharem disso, em que pese carregarem a marca da tradição presbiteriana, que tem no desapego ao poder centralizado e personificado sua maior distinção em relação às demais igrejas evangélicas. Os nomes são conhecidos e temidos no meio interno: Roberto Brasileiro e Manuel Luzia (“Ave Cézar” duas vezes)!

 

Dentre aqueles muitos brasileiros que foram para Portugal, há centenas que, no Brasil, frequentavam igrejas presbiterianas vinculadas à IPB, e que mesmo após anos lá em terras além-mar, nunca se desvincularam da condição de membro, ou seja, a IPB tem centenas de membros em Portugal. Conversei com muitos deles, e, curiosamente, o sentimento predominantemente é de que a imensa massa de brasileiros evangélicos da IPB que moram em Portugal não veem nada realmente parecido com a estrutura séria de governo que existe nas igrejas da IPB no Brasil. O relato comum é de desassistência espiritual, pois os “pastores-missionarios” da APMT têm como foco “alcançar o povo português” e, em sua maioria, idolatram o líder da ICPP (Manuel Luzia, “Ave César”) e o outro pastor português da denominação,  Paulo Jorge (esse último sem direito a “Ave Cesar”), desde um episódio, guardado a sete chaves, que resultou na desilusão de grande parte dos membros da ICP Carnaxide há poucos anos, e fez com que ela passasse a ter menos de 10 membros, apesar de estar situada em área nobre de Lisboa.

 

O generoso salário fixo pago a esse pastor da ICP Carnaxide, da ordem de 2 mil euros em média, por mês, ou algo próximo a 12 mil reais, que vem a ser o que chamam de mínimo ou piso da denominação, é atualmente fonte de frequentes embates internos, encabeçados pela ala mais séria de pastores da ICPP, que tem no pastor Leonardo Campanha, da ICP Pedras Vivas seu maior expoente, e, coincidentemente, o único eleito a presidir um Conselho de Presbíteros também eleito pela comunidade, embora sem força política para fazer frente ao domínio de Manuel Luzia.

 Como resultado dessa situação, o que se vê é que dezenas daqueles brasileiros que eram de igrejas vinculadas à IPB no Brasil, hoje estão frequentando Igrejas Batistas.

 Isso mesmo, e por mais estranho que pareça para um presbiteriano típico, segundo pude constatar, os presbiterianos então membros da IPB quando moravam no Brasil, se veem obrigados a frequentar as muitas Igrejas Batistas em Portugal, por não enxergarem a seriedade e a legitimidade do modelo presbiteriano nas igrejas da ICPP, apesar de na sua grande maioria serem conduzidas por “pastores-missionários” brasileiros da IPB.

O que se diz, inclusive, é que esses mesmos “pastores-missionários” dificilmente seriam mantidos como lideranças em igrejas brasileiras, e que não têm a coragem suficiente para irem para campos missionários carentes, no Brasil ou em outros países do mundo não evangelizados, e, por isso, se unem em torno de Manuel Luzia e Paulo Jorge, como garantia de manutenção nas mais celebradas cidades turísticas de Portugal.

 E justamente nesse ponto é que cabe a comparação do sistema religioso IPB-APMT-ICPP, com a Biologia, na vertente “Parasitas e Hospedeiros”.

Há uma diferença essencial entre servir uma comunidade de fé e viver dela. A primeira realidade pertence ao campo da vocação. A segunda, ao campo da captura institucional. O problema começa quando as duas coisas passam a ser deliberadamente confundidas: quem é sustentado pelo sistema apresenta-se como voluntário; quem depende da boa-fé coletiva fala como se estivesse apenas “servindo”; quem ocupa lugares de influência por anos, décadas ou gerações apresenta a própria permanência como sinal de fidelidade, quando muitas vezes ela revela apenas domínio político sobre estruturas que deveriam ser espirituais.

O presbiterianismo, em tese, foi concebido para impedir personalismos. Conselhos, presbitérios, sínodos e concílios existem precisamente para diluir o poder, submeter ministros e presbíteros a escrutínio mútuo e impedir que a igreja seja propriedade de indivíduos ou grupos. Na IPB, por exemplo, o Supremo Concílio é formalmente a assembleia magna composta por deputados eleitos pelos presbitérios e órgão de unidade de toda a denominação. A própria estrutura oficial pressupõe concílios, jurisdição, governo, disciplina e documentos normativos.

Em Portugal, as comunidades presbiterianas também se apresentam sob linguagem reformada, confessional e eclesial, com vida comunitária, culto, tradição e estruturas próprias.

O problema, portanto, não está na existência da estrutura, mas sim na sua colonização

A relação entre parasita e hospedeiro ajuda a compreender esse fenómeno com uma precisão desconfortável.

Na biologia, o parasita não destrói imediatamente o hospedeiro. Se o fizer, perde a fonte da própria sobrevivência. A sua inteligência instintiva está em retirar o suficiente para se manter vivo, mas não tanto a ponto de provocar colapso imediato. O parasita adapta-se ao corpo que ocupa, aprende os seus ritmos, explora as suas defesas e, em certos casos, manipula o comportamento do hospedeiro em benefício próprio.

Em estruturas religiosas, o mesmo padrão pode ocorrer de forma social, simbólica e financeira. O hospedeiro é a comunidade: os membros simples, as famílias que ofertam, os voluntários que limpam, ensinam, cantam, visitam, transportam, evangelizam e sustentam a vida real da igreja.

O parasita institucional é o grupo que aprende a converter essa energia espiritual em permanência no poder, influência informal, capital reputacional, remuneração direta ou indireta, cargos, viagens, visibilidade, controle de púlpitos, acesso a redes e capacidade de decidir quem entra, quem sobe, quem é silenciado e quem será tratado como ameaça.

O discurso público é quase sempre o mesmo: “fazemos tudo por vocação”; “a obra é de Deus”; “ninguém está aqui por interesse”; “é tudo voluntário”; “estamos apenas a servir”. Mas, quando se observa o fluxo real de benefícios, a narrativa começa a perder inocência.

Há sempre alguém a financiar e alguém a ser financiado. Há sempre quem dê sem retorno institucional e quem receba em forma de salário, prebenda, influência, autoridade, visibilidade ou proteção.

Nem todo sustento ministerial é parasitário, evidentemente

Uma igreja que sustenta com transparência os seus pastores age dentro de uma lógica legítima. O problema surge quando o sustento se esconde atrás da retórica do sacrifício, quando a dependência econômica se apresenta como espiritualidade e quando a prestação de contas é substituída por apelos à confiança.

O parasitismo religioso raramente se anuncia como ganância. Ele prefere a gramática da piedade. Não diz “quero permanecer no topo”; diz “Deus ainda me conserva aqui”. Não diz “não quero perder influência”; diz “é preciso preservar a unidade”. Não diz “não admito fiscalização”; diz “não podemos escandalizar o Evangelho”. Não diz “este sistema sustenta os meus interesses”; diz “não toqueis nos ungidos do Senhor”.

A manipulação é eficaz porque usa palavras santas para blindar comportamentos profanos. O ponto crítico é a assimetria moral. O membro comum é ensinado a servir sem esperar reconhecimento. O líder instalado, por sua vez, espera deferência, proteção, continuidade e, em muitos casos, remuneração. O voluntariado é exigido da base; a estabilidade é reservada ao topo. A renúncia é pregada aos que ofertam; a preservação de privilégios é praticada pelos que governam. A comunidade aprende a chamar de “sacrifício” aquilo que entrega, enquanto certos dirigentes chamam de “sustento legítimo” aquilo que recebem.

O parasita institucional depende de três condições: memória curta, culpa moral e medo de ruptura. A memória curta impede que a comunidade compare promessas antigas com resultados concretos. A culpa moral faz com que qualquer questionamento pareça rebeldia. O medo de ruptura mantém pessoas lúcidas em silêncio, porque elas não querem “dividir a igreja”.

Assim, o sistema aprende que basta acusar o crítico de falta de amor, falta de submissão ou falta de espiritualidade para neutralizar perguntas legítimas.

Essa é uma das formas mais eficientes de abuso institucional: transformar lucidez em pecado

Há ainda uma camada mais sutil. Em muitas comunidades, quem financia o sistema não tem verdadeira voz sobre ele. O membro oferta, trabalha, comparece, educa filhos na tradição, sustenta eventos, mantém templos, legitima estatísticas e dá corpo à denominação. Mas, quando pretende discutir prioridades, finanças, critérios de liderança, sucessão, disciplina ou transparência, é tratado como rebelde ou insurgente.

O hospedeiro sustenta o organismo, mas não controla o organismo que vive dele

Essa inversão é o núcleo do problema. A igreja local vira base eleitoral. O voluntário vira mão de obra gratuita. A contribuição financeira vira combustível para máquinas pouco auditáveis. A confiança pastoral vira capital político. A espiritualidade da membresia vira cobertura moral para uma elite que se apresenta como serva enquanto opera como classe dirigente.

A comparação com parasitas é um ataque à fé cristã nem ao presbiterianismo enquanto tradição. A crítica é aqui feita porque a tradição presbiteriana, quando levada a sério, contém anticorpos contra esse tipo de captura. Governo colegiado, pluralidade de presbíteros, disciplina, concílios, escrutínio doutrinário, deliberação formal e responsabilidade mútua existem exatamente para impedir que o carisma pessoal, o sobrenome, a rede de favores ou o controlo financeiro substituam a fidelidade bíblica.

O problema é que anticorpos institucionais também podem ser neutralizados. Basta que os mesmos grupos controlem nomeações, comissões, candidaturas, relatórios, púlpitos, narrativas e processos disciplinares. Quando isso acontece, a forma continua presbiteriana, mas a substância aproxima-se de uma oligarquia religiosa. Há atas, concílios, eleições e regimentos; mas a previsibilidade dos resultados denuncia que o sistema já foi domesticado.

O público externo tende a imaginar que o risco maior das instituições religiosas está em escândalos visíveis: dinheiro desviado, abuso sexual, enriquecimento ostensivo, manipulação eleitoral explícita. Esses casos existem e precisam ser tratados com dureza. Mas a forma mais persistente de parasitismo costuma ser mais discreta: a perpetuação de estruturas que abusam da pureza espiritual e boa-fé das pessoas.

O parasita não precisa roubar o cofre para capturar a igreja; basta controlar a agenda, os temas que podem ser discutidos, quais perguntas são inconvenientes, quais pessoas são “problemáticas”, quais relatórios são apresentados, quais dados são omitidos, quais conflitos são tratados nos bastidores, quais líderes serão protegidos e quais dissidentes serão isolados.

O “poder” não se revela apenas em quem assina cheques, mas em quem define o que a comunidade pode ou não saber.

O teste moral é simples: quem recebe do sistema aceita ser fiscalizado pelo sistema? Quem fala em vocação aceita abrir números, critérios, benefícios, conflitos de interesse e mecanismos de sucessão? Quem pede confiança aceita auditoria? Quem invoca unidade aceita contraditório? Quem exige submissão aceita disciplina? Quem se apresenta como servo aceita perder cargo sem destruir pessoas à sua volta?

Se a resposta for não, já não estamos no campo da vocação. A boa doutrina pode ser usada como ornamento por maus operadores. A tradição pode ser usada como escudo. A piedade pode ser convertida em ferramenta de controle. E a boa-fé dos simples pode tornar-se o mais valioso ativo de quem aprendeu a viver no topo sem prestar contas à base.

Nem todo discurso de serviço é serviço. Nem toda estabilidade é fidelidade. Nem toda unanimidade é paz. Nem toda ausência de conflito é saúde. Às vezes, a paz institucional é apenas o silêncio do hospedeiro enfraquecido.

A cura começa quando a comunidade recupera o direito de fazer perguntas sem ser culpabilizada. Quanto custa manter a estrutura? Quem é remunerado direta ou indiretamente? Que benefícios existem além do salário formal? Quem decide? Quem fiscaliza? Quem pode discordar? Como se dá a sucessão?

Quais são os critérios objetivos para cargos, comissões, púlpitos, bolsas, viagens, nomeações e representações? O que acontece quando alguém denuncia abuso de poder? Quem protege o denunciante?

Onde essas perguntas são recebidas como ameaça, há algo errado

A verdadeira vocação não teme a luz. O serviço genuíno não precisa de neblina. A autoridade espiritual legítima não se ofende com a prestação de contas. Quando líderes religiosos usam a boa-fé alheia como alimento político, financeiro ou simbólico, deixam de atuar como pastores e passam a comportar-se como organismos de extração.

Como me disseram algumas das pessoas com quem conversei em Portugal, “ainda bem que temos as Igrejas Batistas aqui para não ficarmos totalmente isolados. Ainda que algumas nos exijam ser novamente catequizados e batizados, pelo menos conseguimos ver seriedade e fidelidade bíblica, e não idolatria disfarçada de presbiterianismo”.

 

terça-feira, 23 de junho de 2026

 

Política e Religião no Brasil e em Portugal: o que a história tem a nos ensinar

Da simbiose histórica entre altar e poder ao clientelismo que esvazia as eleições — uma leitura filosófica e contemporânea

Quando Pedro Álvares Cabral fincou a cruz na praia de Porto Seguro, em abril de 1500, não estava apenas rezando, mas tomando posse. A cruz e a espada chegaram juntas ao Novo Mundo, e, desde então, no Brasil e em Portugal, a relação entre o poder político e o poder religioso nunca foi simples e inocente, e raramente foi honesta.

Cinco séculos depois, nos deparamos com o mesmo questionamento: a fé serve para libertar as pessoas ou para mantê-las em ordem? E quando a resposta é a segunda opção, o que resta da fé?

Escrevo isto não como anticlerical ou inimigo das igrejas, mas sim como jornalista que tem acompanhado de perto, nos últimos anos, o funcionamento interno de algumas denominações protestantes em Portugal e no Brasil, e que reconhece, naquilo que observa, padrões que a história já descreveu com precisão e que os filósofos já diagnosticaram com antecedência.

O altar e o trono: uma aliança tão velha quanto o poder

Portugal e Brasil nasceram como projetos simultaneamente políticos e religiosos. O Padroado — o sistema pelo qual a Coroa portuguesa detinha o direito de nomear bispos e controlar a Igreja nos territórios sob sua influência — foi talvez o mais sofisticado instrumento de fusão entre poder civil e poder religioso que o Ocidente moderno conheceu. O rei rezava, mas também mandava. O bispo obedecia a Roma, mas também a Lisboa.

No Brasil imperial, D. Pedro II herdou esse modelo e aperfeiçoou-o. O Padroado brasileiro deu ao imperador o controlo efetivo sobre a Igreja Católica nacional, incluindo o direito de vetar bulas papais. A religião era, na prática, um departamento do Estado. E o Estado, por sua vez, legitimava-se na religião.

A República proclamada em 1889 separou formalmente os dois poderes. Mas a separação formal nunca foi separação real. No século XX, o Estado Novo de Getúlio Vargas e, depois, a ditadura militar (1964–1985) souberam usar a linguagem religiosa quando lhes convinha, e silenciar os religiosos que discordavam quando não convinha.

Em Portugal, Salazar foi ainda mais explícito: o regime do Estado Novo (1933–1974) tinha na Igreja Católica um dos seus pilares de legitimação, e a Concordata de 1940 entre o governo português e o Vaticano formalizou essa aliança.

A democracia chegou aos dois países (1974 em Portugal — 1985 no Brasil), e separou, desta vez com mais seriedade, o Estado da Igreja. Mas a lógica da aliança entre poder e religião não desapareceu. Mudou de endereço.

O que os filósofos disseram e o que continuamos a ignorar

Aristóteles, no século IV, antes de Cristo, identificou aquilo que chamou de degeneração dos regimes. Para ele, todo sistema político tende a corromper-se quando quem governa passa a servir os seus próprios interesses em vez do bem comum. A tirania não é apenas o governo do mais forte; é o governo daquele que se tornou indispensável; que convenceu os outros de que sem ele tudo desmorona.

Há uma frase de Montesquieu, escrita em 1748, que nunca envelheceu: "Para que não se possa abusar do poder, é preciso que, pela disposição das coisas, o poder freie o poder." Montesquieu não estava falando apenas de Estados, mas sim de qualquer instituição humana, incluindo as religiosas. Quando não há separação de poderes e instância independente de fiscalização, o abuso não é uma possibilidade, e sim uma tendência natural.

Tocqueville, ao estudar a democracia americana no século XIX, fez uma observação que muitos leram, mas poucos aplicaram: a religião é mais forte, mais respeitada e mais útil à sociedade quando está separada do poder do que quando está fundida com ele. A religião que depende do Estado para sobreviver perde a sua independência moral. A religião que controla o Estado perde a sua credibilidade espiritual. Em ambos os casos, quem perde é a sociedade.

Hannah Arendt, no século XX, foi mais longe. Ao analisar as origens do totalitarismo, mostrou que os regimes que eliminam o dissenso e a pluralidade não começam necessariamente com tanques nas ruas. Começam com a destruição silenciosa dos espaços onde as pessoas podem discordar, questionar e propor alternativas. Começam quando uma ideologia, política, religiosa ou ambas, passa a tratar o dissenso como rebeldia contra o sistema.

Karl Popper chamou a isso de "sociedade fechada". E a sua definição é simples: uma sociedade fechada é aquela que não tolera a crítica, não permite a revisão das suas premissas e não aceita a alternância de quem a dirige. Para Popper, a diferença entre uma democracia e uma tirania não está na existência de eleições, mas sim na qualidade dessas eleições. Uma eleição que não pode ser perdida não é uma eleição. É uma cerimónia.

Um olhar para a Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB) e para a Igreja Cristã Presbiteriana de Portugal (ICPP) e seus representantes máximos

O clientelismo eclesiástico funciona de forma muito semelhante ao clientelismo político que os brasileiros conhecem bem: quem está no poder nomeia aliados para posições estratégicas, distribui recursos e cargos de forma a criar redes de dependência e lealdade, e usa essas redes para garantir que os resultados eleitorais confirmem o que já estava decidido. Quando alguém ousa questionar, é isolado. Quando alguém apresenta uma candidatura alternativa, encontra o caminho bloqueado por procedimentos regimentais que, curiosamente, sempre favorecem quem já está no poder.

Nesse ponto, e em linha com a investigação que tenho promovido desde 2025, a partir da observação do relacionamento entre a Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB), sua Agência Presbiteriana de Missões Transculturais (APMT) e a Igreja Cristã Presbiteriana de Portugal (ICPP), observo a infeliz coincidência na cúpula do sistema, com as mesmas pessoas figurando por anos a fio como representantes máximas das instituições (IPB e ICPP), e ainda a se orgulharem de tal fato, sem perceberem os malefícios daí decorrentes para o amadurecimento e o aperfeiçoamento institucional.

O problema não é a ausência formal de eleições, mas sim o que acontece antes, durante e depois delas. Não é preciso fraudar uma eleição para esvaziá-la. Basta controlar quem pode votar, quem pode ser votado, quem conta os votos e quem interpreta o regimento quando há dúvidas. Basta que os delegados que chegam à assembleia geral sejam, na sua maioria, pastores e presbíteros sem formação ou sem a consciência de seu real papel no sistema.

É exatamente isso que Popper descreveu. E é exatamente isso que se observa, com variações de escala e de estilo, tanto na IPB quanto na ICPP.

O equívoco que a história já documentou

A história não falta em exemplos do que acontece quando esta lógica se instala e não é corrigida.

No Brasil, o modelo do coronelismo político, estudado por Victor Nunes Leal no seu clássico Coronelismo, Enxada e Voto (1948), descreve com precisão o mecanismo: o coronel não precisa ser ditador. Basta que controle os recursos, as nomeações e as lealdades. As eleições acontecem. Mas o resultado é sempre o mesmo.

Em Portugal, a memória do salazarismo ainda é recente o suficiente para que se reconheça o padrão: um regime que durou quarenta anos não porque fosse amado, mas porque tinha construído uma rede de dependências tão densa que a maioria das pessoas considerava mais seguro não arriscar. A alternância foi adiada até se tornar impossível, e quando finalmente chegou, em 1974, chegou pela força, não pela urna.

O que une estes exemplos históricos ao que se passa hoje em certas estruturas eclesiásticas não é a escala, mas sim a lógica. E a lógica é sempre a mesma: o poder que não se renova apodrece. E quando apodrece, contamina tudo à sua volta.

O que a história tem a nos ensinar

A história ensina que nenhum poder, civil ou religioso, resiste indefinidamente sem alternância efetiva. Ensina ainda que a alternância não é uma concessão generosa dos que estão no poder, mas uma condição estrutural da saúde de qualquer instituição.

Quando não existe alternância, não é porque as pessoas são más, mas porque o sistema foi desenhado para que não exista.

A religião é mais forte quando serve as pessoas do que quando serve o poder. E quando serve o poder, acaba por perder as pessoas.

Acima de tudo, a história ensina que os mecanismos de captura do poder são surpreendentemente parecidos, independentemente da época, do país ou da instituição.

O clientelismo eclesiástico do século XXI não é muito diferente do clientelismo político que Aristóteles descreveu há dois mil e quatrocentos anos. Mudaram os nomes, os títulos e as roupas. A lógica é a mesma.

A pergunta que fica para o leitor, os membros das igrejas e os doadores que financiam estas estruturas é a que Karl Popper formulou com a clareza que só os grandes pensadores conseguem: a instituição à qual pertenço tolera a crítica? Permite a alternância?

Se a resposta for negativa, é fácil antever o que vem a seguir.

Nota do autor: Este artigo é o terceiro de uma série sobre o funcionamento das estruturas de poder eclesiástico presbiteriano em Portugal e no Brasil. Os dois artigos anteriores — "Mamata Transcultural Missionária" e "Abuso Espiritual e Religioso em Igrejas Presbiterianas em Portugal" — documentam casos concretos que ilustram os padrões aqui descritos.

segunda-feira, 15 de junho de 2026

 

Abuso Espiritual e Religioso em Igrejas Presbiterianas em Portugal

Silêncio complacente da APMT e vergonha para a IPB

No artigo anterior, mostrei como um pastor-missionário oriundo da Igreja Presbiteriana do Pina, em Recife, chamado Alan Carlos Gomes Moreira, tem agido em relação à gestão de recursos financeiros dos fiéis, na Igreja Cristã Presbiteriana da Luz, em Lisboa, e colocado os interesses pessoais e do grupo político que ele integra à frente dos próprios votos como ministro do evangelho.

O grupo político em questão é composto majoritariamente por pastores-missionários brasileiros, que em comum têm o fato de serem sustentados em terras portuguesas por "igrejas parceiras" brasileiras, com base em projetos pessoais "abençoados" pela Agência Presbiteriana de Missões Transculturais (APMT). Fazem parte da turma os pastores Antonio Xavier da Silva, Celso Dias Alves e Wanderson Matheus dos Santos, dentre outros, que formam uma espécie de tropa de choque do grupo, e têm em comum ainda a idolatria ao líder máximo da Igreja Cristã Presbiteriana de Portugal (ICPP)Manuel Luzia ("ave César") —, entidade que no país português equivale ao que a IPB representa no Brasil, ou seja, a cúpula do "sistema" presbiteriano.

Como lastro da parceria entre a IPB/APMT e a ICPP, há um convênio que já dura 23 anos, e que tem sugado muito, mas muito, muito mesmo, dinheiro das "igrejas parceiras" brasileiras, via chancela da APMT.

O Presidente da APMT, inclusive, "reverendo" Amauri Oliveira, assim como o Presidente da própria IPB, "reverendo" Roberto Brasileiro ("ave César") estiveram em Portugal nos meses de fevereiro e março de 2026, como "convidados de honra" da ICPP, ao que se sabe com as despesas pagas pela IPB, pois a ICPP não teria condições financeiras de bancar tais despesas.

A partir deste artigo, começarei a detalhar sucessivos episódios de abuso espiritual e religioso ocorridos na ICPP, sob a mão de ferro do seu "czar" Manuel Luzia ("ave César"), com o apoio incondicional dos aliados pastores-missionários da APMT, e o silêncio cúmplice dos demais integrantes do Presbitério, de cujas igrejas saem a maior parte dos recursos que financiam o "sistema", mais especificamente dízimos e ofertas, sendo as principais a Igreja Presbiteriana Pedras Vivas, na cidade do Porto, e a Primeira Igreja Cristã Presbiteriana de Braga, na cidade de Braga.

Muitos desses episódios de abuso espiritual e religioso estão disponíveis na internet ou são conhecidos na rede de Igrejas da ICPP.

Vamos ao caso deste artigo, segundo o relato das próprias vítimas, disponível no site https://www.icpbraga.pt/historia:

A Igreja Presbiteriana de Braga

Início do trabalho em Braga

A Igreja Presbiteriana de Braga — sendo a primeira igreja presbiteriana e reformada na cidade e Distrito de Braga, região do Minho — é o resultado do trabalho iniciado pela família Almeida em sua residência no ano de 2016.

Após cinco anos vivendo em Braga e tendo constatado a ausência de uma igreja reformada e confessional no Distrito, a família Almeida deu início ao trabalho de implantação de uma igreja de confissão presbiteriana no dia 15 de janeiro de 2017, ainda em sua residência, na freguesia de Lamaçães. O objetivo era estabelecer uma igreja local, com futura vinculação a uma denominação presbiteriana histórica e confessional.

O Sr. Almeida iniciou as pregações, expondo a carta de Paulo aos Efésios, alternando com o pastor Alexandre Martins, que pregava no livro do profeta Malaquias.

Filiação à ICPP

Inicialmente participavam das reuniões regularmente as famílias Almeida e Martins e, ocasionalmente, visitantes. Após um ano e três meses, as duas famílias tornaram-se membros da Igreja Cristã Presbiteriana Manancial de Paços de Ferreira (ICPMPF), e o ponto de pregação em Braga passou a estar oficialmente filiado à Igreja Cristã Presbiteriana de Portugal (ICPP).

A partir do dia 11 de março de 2018, os cultos foram realizados na sala 28 da Rua de Caires, 328, em Maximinos, Braga. Naquele dia, a Palavra de Deus foi pregada em Efésios 2:1-2 pelo irmão Heraldo Almeida, que continuou designado pelo Conselho da ICPMPF como evangelista e pregador responsável pela congregação.

Desligamento da ICPP

No ano em que a Congregação de Braga completaria quatro anos de existência, e mesmo tendo histórico de elogios do Conselho da ICPMPF pelo trabalho fiel e próspero realizado, um fato inesperado e inusitado ocorreu.

No dia 6 de janeiro de 2022, a Assembleia Geral da ICPP decidiu, de forma sumária e arbitrária, desvincular a Igreja Cristã Presbiteriana de Braga (ICPB) da denominação. A comunicação oficial foi feita por e-mail, no dia 10 de janeiro, através do Conselho da ICPMPF.

A decisão ocorreu após a congregação de Braga ouvir, por meio de representantes fiéis, o missionário indicado para assumir o pastorado local. Ao perceberem inclinações pentecostais, desconhecimento do princípio regulador do culto e abertura à pregação por mulheres, e preocupados com o desvio dos princípios bíblicos e confessionais, os membros manifestaram preocupação com o desalinhamento à doutrina reformada.

Por orientação do então presidente da Assembleia Geral, a congregação encaminhou um documento respeitoso ao presbitério, solicitando a reversão da posse do missionário. A Assembleia, ao analisar o pedido, decidiu pela exclusão dos membros da ICPB com base no artigo 9, alínea 5 do Regimento Interno, sem oportunizar direito de defesa ou resposta ao documento enviado.

Mesmo após novo pedido de esclarecimentos, não houve resposta formal por parte do Conselho ou Presbitério. Estranhamente, a ICPP autorizou o missionário a iniciar um novo trabalho presbiteriano em Braga, na mesma freguesia, sob o nome de Primeira Igreja Cristã Presbiteriana de Braga.

Fonte: icpbraga.pt/historia

O abuso espiritual e religioso ocorre quando líderes se valem de sua posição de comando para manipular situações em nome de Deus. Dada sua gravidade e prejuízos para a paz, pureza e ordem da comunidade, o abuso espiritual e religioso é combatido expressamente pelo Código de Disciplina da IPB, um documento robusto e que existe há várias décadas.

A ICPP diz adotar o Código de Disciplina da IPB, mas essa afirmação não se confirma em nenhum dos episódios de abuso espiritual e religioso praticados sob a batuta de Manuel Luzia ("ave César") e seus aliados. A exclusão sumária de pessoas que ousam discordar dele e/ou de seus aliados, tem sido regra, por incrível que pareça, como visto no relato transcrito anteriormente, que é apenas um de tantos outros que iremos expor nos artigos seguintes.

Por mais de uma década, destacava-se como homem-forte da ICPP e braço direito de Manuel Luzia ("ave César"), o pastor-missionário brasileiro Celso Dias Alves, há mais de uma década à frente da Igreja Presbiteriana de Cristo (http://ipcristo.pt/Quem_Somos), no bairro nobre de Lisboa chamado Campo de Ourique:

"Reverendo" Celso Dias Alves — pastor-missionário brasileiro à frente da Igreja Presbiteriana de Cristo, em Campo de Ourique, Lisboa

Embora Celso Dias Alves não esteja mais no cargo de Secretário Executivo da ICPP, mantém toda influência e liderança sobre os demais missionários da APMT em solo português, agora em revezamento com Alan Carlos Gomes Moreira, Antonio Xavier da Silva e Wanderson Matheus dos Santos, todos pastores-missionários brasileiros sustentados por "igrejas parceiras" brasileiras.

Segundo minha equipe apurou, a propósito, Alan Carlos Gomes Moreira teve uma série de denúncias gravíssimas apresentadas contra ele arquivadas a partir da forte atuação do grupo em questão, em reunião realizada na cidade do Porto nos dias 19 e 20 de março, ou seja, aquela em que o presidente da APMT esteve como convidado de honra, e, no momento, está no Brasil passando "a sacola" de igreja em igreja, como se nada tivesse acontecido, e ainda "vendendo" a ideia de que tem feito grande progresso como missionário em terras portuguesas, apesar de a Igreja da Luz e das duas Congregações vinculadas a ela, sob a responsabilidade dele, nas cidades de Pombal e de Leiria, estarem em completo declínio, com a saída de mais de duas dezenas de famílias, exatamente pela forma como ele tem agido à frente dos trabalhos, seja em razão da truculência, seja pela falta de transparência ou práticas questionáveis na gestão dos recursos dos fieis, como apontado pela Comissão Revisora de Contas da Igreja da Luz, na Assembleia Ordinária realizada em 19 de abril de 2026, como demonstrei no artigo anterior.

Destaque-se que a instância disciplinar a que se submetem tais pastores-missionários brasileiros em solo português, é o presbitério da própria ICPP, um órgão colegiado onde o grupo de Manuel Luzia ("ave César") tem maioria de votos, age como "trator", atropelando os demais membros e usando das piores práticas políticas para fazer prevalecer sua vontade e manter os privilégios e posição de poder, inclusive arquivar qualquer pedido de apuração apresentado contra seus integrantes, como ocorrido em 19 e 20 de março de 2026.

Os presbitérios de origem desses pastores-missionários da APMT que estão em Portugal, localizados em diversas regiões do Brasil, até onde se tem conhecimento, nem fazem ideia das condutas erráticas praticadas em Portugal, e lhes devotam reverência e recursos financeiros para sustento, como se o fizessem a verdadeiros heróis, pelo suposto desprendimento em estarem em campo missionário, a despeito de as cidades turísticas onde estão em nada se assemelharem com o real significado dessa expressão.

Mais recentemente, segundo também me foi possível apurar, o grupo de pastores-missionários da ala Manuel Luzia ("ave César") tem conseguido recrutar presbíteros cuja inteligência parece não ir muito longe, como um tal Nuno Miguel Brazão Pinheiro, português que, sabe-se lá a que custo, foi promovido pelo czar a membro de três "Conselhos Provisórios", respectivamente na Igreja da Luz, na Igreja do Barreiro e na Igreja de Telheiras, sobre as quais teremos artigos específicos em breve. "Conselho Provisório", cabe relembrar, é o "jeitinho" usado pelo grupo para se manter no poder e evitar que as comunidades adquiram autonomia e tenham plena liberdade de decidirem o próprio futuro.

Foi com base nessa estrutura esquisita para os padrões presbiterianos tradicionais que, após o abuso espiritual e religioso ocorrido em Braga, relatado na transcrição acima, a APMT patrocinou uma nova Igreja em Braga, que passou a invocar a condição de Primeira Igreja Cristã Presbiteriana de Braga - ICP Braga, como se aquela anterior simplesmente não existisse.

À frente dessa nova Igreja Presbiteriana de Braga está o pastor-missionário brasileiro Wanderson Matheus dos Santos, amigo pessoal de mais de 30 anos do "reverendo" Roberto Brasileiro ("ave César"), Presidente da IPB, aquele mesmo pastor-missionário que conseguiu o "empréstimo" de 100 mil euros, ou algo em torno de 600 mil reais, em 2024-2025 para compra do imóvel onde a Igreja funciona atualmente, e que era um antigo restaurante.

Na prática, a turma que comete ou apoia o abuso espiritual e religioso em Portugal foi "premiada" pela IPB, com um mimo que dificilmente as igrejas filiadas brasileiras conseguiriam nas mesmas condições.

Duvida? Então pergunte aos líderes de sua igreja presbiteriana no Brasil, vinculados à IPB, se eles teriam acesso ao generoso valor de 600 mil reais para comprar um imóvel para a igreja, sem prazo para pagamento e sem qualquer obrigação específica a título de contrapartida, como foi o caso.

A foto abaixo, mostra os reverendos Manuel Luzia ("ave César"), Wanderson Matheus dos Santos, Roberto Brasileiro ("ave César") e Celso Dias Alves (com o microfone) na inauguração da "nova" Primeira Igreja Cristã Presbiteriana de Braga, extraída do vídeo disponível no YouTube (https://www.youtube.com/live/u0ZuUpw2rZY?si=HdMBYr5W-sOuiyNz):

Reverendos Manuel Luzia, Wanderson Matheus dos Santos, Roberto Brasileiro e Celso Dias na inauguração da nova Igreja de Braga
Reverendos Manuel Luzia ("Ave César"), Wanderson, Roberto Brasileiro ("Ave César" novamente) e Celso Dias, na inauguração da "nova" Igreja de Braga, a do mimo de 100 mil Euros ou 600 mil reais

Haja silêncio, haja complacência e haja vergonha para a IPB, uma denominação cuja seriedade e bom testemunho têm atravessado mais de um século e agora se vê submetida a esse tipo de situação.

Em breve, cenas do próximo capítulo, como diríamos antigamente, nos tempos das novelas daquela emissora do "plim plim" ou "spoiler", como dizem os mais novos.

terça-feira, 9 de junho de 2026


"Mamata" Transcultural Missionária

 


Como o suor de doadores brasileiros financia uma casta eclesiástica na Europa, com direito a bônus para lideranças, nepotismo cruzado e triangulação bancária!

Enquanto milhares de fiéis em igrejas locais no Brasil se mobilizam mensalmente para recolher dízimos e ofertas voluntárias, abrindo mão de recursos preciosos em prol da "obra missionária na Europa", os bastidores eclesiásticos em solo português revelam uma realidade bem menos sacrificial.

Sob o manto da Agência Presbiteriana de Missões Transculturais (APMT) da Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB), o que deveria ser um esforço de evangelização transformou-se, em solo português, em uma engrenagem de manutenção de poder, clientelismo e privilégios.

O "modus operandi"

Em consulta simples ao site da APMT e missionários alocados na Europa, constata-se diversos casais e seus “projetos pessoais”, tais como aqueles encabeçados pelos “reverendos” Celso Dias (Lisboa), Antônio Xavier (Grande Lisboa), Wanderson Matheus dos Santos (Braga), Dantas (Aveiro), Alan Moreira (Lisboa) e Denilson (Évora).

O que eles têm e divulgam em comum?

Descrições vagas sobre ações evangelísticas para “plantar igrejas”, “revitalizar igrejas” e “alcançar o povo português”.   

A partir desses “projetos pessoais”, “abençoados” pela APMT, esses missionários rodam o Brasil em busca de recursos de “Igrejas parceiras” que possam contribuir para mantê-los em Portugal por ciclos de três anos.

Uma vez em Portugal, o que eles fazem efetivamente possui enorme contraste com o que se conhece como “obra missionária”.

O que seria prestação de contas, são cartas enviadas a cada três meses, permeadas de sentimentalismo e de fotos de atividades corriqueiras de igrejas frequentadas quase que totalmente apenas por brasileiros.

Os tais projetos recebem o aval da denominação equivalente à Igreja Presbiteriana do Brasil, que em Portugal é chamada Igreja Cristã Presbiteriana de Portugal (ICPP) em convênio entre as duas instituições que já dura 23 anos.

Tem início, então, algo que se afasta totalmente da seriedade histórica do modelo presbiteriano e da própria higidez administrativa da IPB, com os mesmos “reverendos” citados acima organizando-se em “Conselhos Provisórios”, para manter posições de prestígio e poder, com a única condição de jurar lealdade e serviço incondicional ao presidente da ICPP, Manuel Luzia, conhecido nos bastidores como o czar do sistema, ou seja, titular de um poder absoluto ou de grande influência, e ao seu fiel escudeiro, o também português “reverendo” Paulo Jorge, ambos referidos como imperadores do sistema, pela alcunha “pastores portugueses” (“ave César”).

 O caso da Igreja Cristã Presbiteriana da Luz e do Projeto Oikos127

O que há anos eram apenas relatos de bastidores, de suspeitas de desvios financeiros e de escândalos abafados, ganha agora contornos factuais e incontestáveis.

 Liderada pelo “reverendo” Alan Moreira, oriundo da Igreja Presbiteriana do Pina, em Recife, a “Igreja da Luz”, como é comumente chamada, fica em Benfica, bairro do famoso “Estádio da Luz”, e área nobre de Lisboa, onde ele também mora, há quase uma década.

A Igreja teve antes como seu pastor o “reverendo” Celso Dias, e desde 2017 tem sido conduzida pelo aliado de primeira hora Alan Moreira, que juntamente com o chefe da denominação (Manuel Luzia) compõem o Conselho Provisório de várias outras Igrejas Presbiterianas em Lisboa, e que atua como o que foi conhecido no Brasil como capitanias hereditárias e o período dos senhores feudais.

Curiosidade: A Igreja da Luz tem estado em “revitalização” todos esses anos, e o que se vê ano após ano, é o contrário: DEGRADAÇÃO, a ponto de a turma da “mamata transcultural” ter conseguido desorganizar duas gestões de presbíteros eleitos; a primeira vez em fevereiro de 2025, e a segunda vez em março de 2026, sob o silêncio cúmplice da instância superior, chamada Presbitério da ICPP, órgão máximo do sistema e que é sustentado pelos dízimos dos membros das Igrejas presbiterianas vinculadas à ICPP.

 Por falar em dízimos e ofertas missionárias, documentos internos da Comissão Revisora de Contas da Igreja Luz, apresentados na Assembleia Geral Ordinária realizada em 19 de abril de 2026, trouxeram à luz (sem trocadilhos) o que pode ser a verdadeira razão para um mesmo pastor brasileiro estar a tanto tempo como líder daquela comunidade.

São expostas as profundas fragilidades administrativas e o uso discricionário do dinheiro sagrado dos membros ofertas para prestigiar, dentre outros, justamente a casta de pastores da cúpula da ICPP.

 O "Mimo" de Mil Euros, Favorecimento Familiar, diárias em “resorts”, e carros de luxo

O relatório apresentado pelo órgão de fiscalização da Igreja, no item 4.5 (Aspectos Gerais de Governança), aponta categoricamente para a "ausência de critérios formais e objetivos para o direcionamento das ofertas".

O primeiro grande escândalo documental revela que a igreja local assumiu o compromisso de enviar uma oferta no valor de 1.000€ diretamente ao presidente do Presbitério da ICPP.

"Como exemplos, destacam-se: a oferta no valor de 1.000€ ao presidente do Presbitério (ICPP), bem como a escolha de dois missionários para recebimento de contribuições mensais (no valor de 350,00€ cada), sem definição de prazos para tais repasses."

O repasse direto de bonificações em euros à autoridade máxima do concílio, sem qualquer justificativa ou meta institucional, levanta o primeiro sinal de alerta sobre a existência de um "balcão de negócios". Para agravar o cenário de quebra de impessoalidade, o documento oficial ressalta o que se configura como nepotismo eclesiástico:

"Ressalta-se, ainda, que um dos missionários beneficiados [Ismael Pinta] possui vínculo familiar com o referido presidente do Presbitério. [filho]"

Na prática, dízimos e ofertas — inclusive os captados de brasileiros que muitas vezes vivem em condições econômicas inferiores às da classe média europeia — estão sendo redirecionadas indiretamente para subsidiar o padrão de vida de parentes do líder máximo da ICPP e seus aliados leais.

Esses fatos novos, entretanto, são apenas a progressão de outros ainda piores, que envolvem ofertas para que os pastores portugueses pudessem descansar em resorts, carros luxuosos, piso salarial de quase dois mil euros como barreira para evitar mudanças no sistema, dentre outros exemplos.

Triangulação Bancária e Assinaturas Copiadas

O controle familiar sobre os recursos financeiros da Igreja da Luz atinge seu ápice no item 2 do documento do órgão de fiscalização. Ali, descreve-se um arranjo financeiro que desafia as regras mais básicas de conformidade legal e fiscal, envolvendo as operações do Projeto Oikos 127 e outros braços missionários.

De acordo com o texto, parte dos repasses mensais de 350€ destinados o outro missionário na Sérvia, que goza da intimidade de Alan Moreira, sequer transitavam por sua conta bancária oficial, sob a alegação de "limitações técnicas e burocráticas". O dinheiro era operado por meio da conta de um terceiro: Stefan Vika.

Quem é o intermediário? A auditoria responde: Stefan Vika é genro do pastor à frente da Igreja, Alan Moreira.[Igrejas no Brasil] ──(Ofertas em R$)──> [APMT / Igreja da Luz]

A teia familiar não para por aí. Conforme o relatório:

“Acrescentamos que os recibos correspondentes são emitidos pela filha do presidente do Conselho e a assinatura do beneficiário não possui validade formal (sendo apenas uma imagem colada manualmente).”

A própria Comissão Revisora de Contas da Igreja da Luz conclui que a prática configura uma grave "fragilidade nos controles internos, especialmente quanto à autenticidade e adequada segregação de atividades".

Trata-se de um feudo administrativo: o sogro preside, o genro recebe o dinheiro na conta, a filha emite o recibo e o missionário figura no processo apenas com uma assinatura digital recortada e colada.

O Pacto de Lealdade e a adesão ostensiva dos Presidentes da APMT e da IPB

O funcionamento dessa estrutura ajuda a explicar por que determinados projetos missionários em Portugal se perpetuam por dez, quinze ou vinte anos em centros turísticos valorizados, como aqueles citados no início deste artigo, sem nunca alcançarem a emancipação financeira ou a eleição de pastores locais.

Para manter o status de "missionário na Europa", o livre fluxo de euros e o financiamento de habitações caras, instituiu-se o pacto lealdade.

Quem se submete politicamente à presidência da ICPP garante a blindagem de seus projetos e a validação de suas cartas missionárias perante a agência brasileira. Quem ousa questionar a falta de transparência é isolado ou sumariamente desligado, por “rebeldia”.

Do outro lado do Atlântico, constata-se que a APMT tem falhado gravemente em seu papel de fiscalização (accountability), o que se diz ter a ver com idêntica estrutura de poder instituída na IPB, em que seu presidente nomeia quem quer para os mais diversos e bem remunerados cargos-chave que lhe garantam influência, como é o da presidência da APMT, dentre muitos outros.

O Presidente da APMT, “reverendo” Amauri Oliveira inclusive, esteve pessoalmente presente na Assembleia Geral Ordinária da ICPP em 19 e 20 de março, na cidade do Porto, como convidado de honra de ninguém menos do que o “reverendo” Manuel Luzia. Um mês antes, por coincidência, o próprio presidente da IPB, “reverendo” Roberto Brasileiro, também por lá esteve, emprestando sua nobre imagem a tudo isso:

 



Ao atuar como mera chanceladora institucional, permitindo que igrejas brasileiras enviem recursos no escuro, sem auditorias externas independentes nos campos receptores, a APMT torna-se solidária na perpetuação dessa mamata transcultural missionária.

As evidências formais da Igreja da Luz provam que os argumentos da "frieza espiritual da Europa", “plantação e revitalização de igrejas” e de “alcançar o povo português” têm sido usados como cortina de fumaça para esconder o favorecimento pessoal de muitos dos missionários da APMT em Portugal.

Como pode uma instituição centenária como a IPB, e a APMT se vincularem a esse tipo de situação que tanto denigre suas imagens e o trabalho sério de dezenas de missionários mundo à fora?

Fizemos essa mesma pergunta aos “reverendos” Roberto Brasileiro e Amauri Oliveira, mas nos foi dado o silêncio como resposta.

O canal segue aberto.

Em breve, cenas do próximo capítulo, como diríamos antigamente, nos tempos das novelas daquela emissora do “plim plim” ou “spoiler”, como dizem os mais novos.

 

 

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